A primeira edição do Metalício converteu a histórica Casa da Botica — edifício oitocentista em ruínas — num território de som, presença e intensidade. A iniciativa da Caixa Negra reuniu três propostas do universo do metal numa noite em que a arquitetura descarnada e as forças sonoras se abraçaram.
A abertura coube aos Cabbra, banda portuguesa de metal alternativo/nu metal formada no Porto em 2019. Reconhecidos pela fusão de grunge, death metal, stoner e doom, imprimiram ao início da noite uma presença sonora densa e impactante. O mais recente trabalho HUMANIMAL (2024), serviu de pano de fundo e impulsionou a intensidade da atuação desde os primeiros acordes.
Seguiram‑se os TAPE, projetados pelo prefixo 253, que reagiram com riffs explosivos, dissonâncias incisivas e a crueza visceral que distingue o underground bracarense, sem nunca perder uma abertura para o experimentalismo sonoro. A banda abraçou a Casa da Botica como se o espaço fosse uma extensão natural da sua música: guitarras que rasgavam o silêncio, ritmos que impunham movimento e uma presença que se enraizava naquele lugar com inevitável intensidade.
No fecho da noite estiveram os Godsin, formados em plena pandemia e sediados em Vila Nova de Famalicão, com elementos provenientes de Santo Tirso, Guimarães, Natal (Brasil) e Bucaramanga (Colômbia). O coletivo apresentou um thrash metal clássico e melódico, uma proposta que incorporou crítica social e preocupação ambiental — temas que ecoaram com notória força no ambiente físico e simbólico da ruína.
Mais do que uma simples sequência de concertos, o Metalício afirmou‑se como uma experiência partilhada entre lugar, público e som. A Casa da Botica, vestígio de um tempo passado, ofereceu‑se como território de escuta e reativação — as suas paredes despojadas de reboco transformaram‑se em partitura arquitetónica para o impacto dos riffs e batidas.
O público, atento e envolvido, viveu cada momento com entrega total: ora preso ao pulso físico da música, ora levado por correntes interiores que faziam emergir sensações e pensamentos em simultâneo. Para quem acredita na dualidade mente/corpo, as propostas sonoras não só se ouviam como se viviam no corpo — como estímulo sensorial que ativa emoções, memórias e reações somáticas que não se separam da experiência mental.