Amares, 7 de fevereiro —

No Auditório Conde Ferreira, a programação da Caixa Negra propôs uma noite dedicada ao som enquanto prática material e crítica. As atuações apresentadas exploraram diferentes modos de construção sonora, colocando em jogo a relação entre repetição, textura e presença.

A abertura esteve a cargo de José Gonçalves Rios (Semivitae) e Israel Machado (Tape, Navegantes da Rua), que se apresentaram pela primeira vez como dupla. A performance foi construída a partir do uso de pedais de efeitos, loops, drones e manipulação sonora em tempo real. O som desenvolveu-se como campo de experimentação contínua: camadas de ruído, texturas densas e variações subtis de intensidade foram sendo sobrepostas num registo que atravessou o ambient, o noise e a improvisação estruturada. Mais do que composição no sentido tradicional, tratou-se de um exercício de escuta ativa, onde a repetição e a instabilidade foram assumidos como elementos constitutivos da forma.

A sessão prosseguiu com a atuação dos NO!ON, que apresentaram o seu mais recente trabalho, Modified Liberation. O duo desenvolveu uma linguagem sonora densa e incisiva, onde darkwave, industrial e shoegaze se articulam com uma herança post-punk claramente assumida. Entre saturação e contenção, o som construiu-se na tensão permanente entre a repetição, a aspereza tímbrica e a uma fisicalidade sonora que recusou qualquer ideia de conforto. O uso de texturas opacas, pulsos repetitivos e atmosferas carregadas construiu um espaço sonoro que não procura resolução, mas confronto — expondo a ambiguidade da ideia de libertação num presente atravessado por formas subtis de controlo e alienação.

 

A noite encerrou com um DJ set de Mácio Alfama (NO!ON), num momento mais descontraído que funcionou como contraponto às atuações anteriores. O ambiente tornou-se mais aberto e informal, criando espaço para a circulação, a conversa e uma bebida, prolongando a experiência de escuta num registo mais fluido e partilhado.

Mais do que um alinhamento de concertos, esta noite no Auditório Conde Ferreira afirmou-se como um território de fricção entre forma, ruído e significado. A Caixa Negra voltou a assumir a programação musical como prática crítica, onde o som não funciona como entretenimento passivo, mas como experiência que exige atenção, posicionamento e escuta.