a r q u i v o  # 3

No dia 11 de julho de 2025, o jardim senhorial da Casa da Botica recebeu Nancy Spungen X e Amijas para uma noite em que a fonte do jardim assumiu a improvável função de palco. Num espaço exterior marcado pela proximidade entre músicos e público, duas propostas distintas encontraram um território comum de experimentação, irreverência e recusa das formas mais previsíveis de fazer e apresentar música.

A abertura coube aos Nancy Spungen X, que apresentaram essencialmente repertório de X-Plosion, disco editado em 2025. Uma espécie de punk experimental de inclinação dadaísta, onde o absurdo, a provocação e a desconstrução fazem parte da própria linguagem da banda. O punk surge como matéria de base, mas dificilmente como fronteira: é constantemente desviado, fragmentado e empurrado para territórios menos previsíveis, numa atuação em que música, atitude e performance se contaminam. Há qualquer coisa de deliberadamente instável na proposta, uma recusa em acomodar o som a uma fórmula reconhecível, mesmo quando as suas raízes permanecem claramente identificáveis.

Entre os temas apresentados, “Baile de Verão” e “Tudo Bem” destacaram-se como bons exemplos dessa linguagem, onde a energia punk convive com o humor, o absurdo e uma permanente vontade de desarrumar as convenções do género. Houve ainda lugar para uma versão de “Mé”, das Decibélicas, recuperando uma banda que fez parte do movimento underground bracarense. Mais do que uma incursão pelo passado, a escolha estabeleceu uma linha de continuidade com uma história musical construída fora dos grandes circuitos e que encontrou em Braga um terreno particularmente fértil.

Seguiram-se as Amijas, que trouxeram à fonte do jardim da Casa da Botica o repertório do álbum homónimo, Amijas, editado em 2025. Também elas partem de uma base rock, mas constroem a partir daí uma linguagem bastante própria. O trompete de Dora Vieira assume grande parte do protagonismo melódico, ocupando frequentemente o espaço que uma formação rock mais convencional reservaria à guitarra ou à voz. A essa deslocação instrumental junta-se alguma exploração eletrónica, abrindo a música a outros territórios e contribuindo para uma sonoridade que não se deixa encerrar facilmente nas fronteiras tradicionais do género.

Nas Amijas, porém, forma e conteúdo caminham necessariamente juntos. As canções recuperam e sublinham alguns dos grandes temas do feminismo de classe, colocando as questões de género em relação direta com as condições materiais de existência, o trabalho, o corpo, a saúde e as desigualdades sociais. Temas como “Alegria da Exploração Laboral”, “Mamografia por Satélite”, “Xixi Vermelho” ou “Suor” tornam evidente esse território político e quotidiano. A exploração laboral convive com o corpo e os seus fluidos, com a experiência feminina, com a saúde e com as condições concretas da vida, sem que o discurso se transforme numa exposição programática. Há humor, ironia e irreverência suficientes para que a dimensão política permaneça dentro das próprias canções e não como comentário exterior à música.

Houve ainda espaço para “Erva Daninha Alastrar”, de António Variações, e para se ouvir naquela fonte “só eu sei que sou erva, erva daninha a alastrar”. Um pequeno, mas significativo serviço prestado à memória do músico amarense. É particularmente interessante ver António Variações erguido em contextos menos “coolturais”, afastado das operações de celebração institucional e de promoção turística a que a sua figura e a sua obra tantas vezes são reduzidas. Naquele jardim não havia Variações como monumento, marca territorial ou produto identitário pronto a consumir. Havia uma canção novamente tocada, apropriada por outros músicos e colocada em circulação perante um público. Talvez seja também esta uma forma mais consequente de preservar uma memória musical: não a congelar, antes permitir que continue a ser usada, reinterpretada e contaminada por linguagens que surgiram depois dela.

O fecho da noite ficou a cargo do DJ Playbeck, instalado sobre a fonte do jardim, ladeado pela urna ornamental. A imagem dificilmente poderia ser mais adequada: um DJ instalado no jardim senhorial de um solar burguês do século XIX.

Entre a arquitetura de um velho solar oitocentista, a fonte transformada em palco e propostas pouco interessadas em respeitar convenções, a Casa da Botica voltou assim a cumprir uma função bastante diferente daquela para que foi construída. A burguesia deixou o solar; ficaram o jardim senhorial, as urnas ornamentais e, felizmente, algum ruído.